O sul também (não) existe

(Alejandro Thornton, America, 2010)

O sul também (não) existe
A arquitetura ficcional da América Latina

EDUARDO PELLEJERO

Num livro de 1977 sobre a obra Alejo Carpentier, Roberto González Echeverría afirmava que, aquém das suas determinações geográficas, económicas e políticas, a América Latina é um lugar literário e ficcional, dividido entre as ficções coloniais hegemónicas (que coincidem com a sua primeira fundação), as ficções nacionalistas modernas (que dobram especularmente a gesta da independência), e as ficções dos escritores que, em maior ou menor medida, procuram pôr em questão essas ficções dominantes, reformulando a tradição e relançando continuamente a fábula da sua fundação. Essa distinção crítica dá conta do papel jogado pela ficção literária nos projectos políticos instituintes das nações latino-americanas (e do imaginário associado), mas também da sua potência subversiva (enquanto mecanismo de desincorporação).

O certo é que, do romantismo ao modernismo, e do modernismo até nós, um verdadeiro devir-menor perpassa a literatura latino-americana, que na exigência de constituir-se como consciência reflexiva do novo mundo viu-se obrigada à uma serie de deslocações estratégicas e de passos ao costado que a levaram além dos horizontes maiores ou maioritários da expressão estética. Vicissitudes de uma literatura que, num território sem lugares comuns, assumiu a tarefa de produzir a memoria de uma experiência partilhada (quando não estilhaçada).

(Des)orientados pelas obras de Ricardo Piglia, Juan José Saer, Antonio di Benedetto, Augusto Roa Bastos, Alejo Carpentier, Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa (exploradores versados nas veredas do novo continente), procuraremos demarcar esse singular território expressivo, onde a arte reconhece a sua natureza imediatamente política, e que constitui uma das dimensões mais interessantes e mais ricas de América Latina.

 

El sur también (no) existe
La arquitectura ficcional de América Latina

EDUARDO PELLEJERO

En un libro de 1977 sobre la obra de Alejo Carpentier, Roberto González Echeverría afirmaba que, además de determinaciones geográficas, económicas y políticas, América Latina es un lugar literario y ficcional, dividido entre las ficciones coloniales hegemónicas (que coinciden con su primera fundación), las ficciones nacionalistas modernas (que retratan espectacularmente la gesta de la independencia)  y las ficciones de escritores que, en mayor o menor medida, cuestionan esas ficciones dominantes, reformulando la tradición y proyectando continuamente la fábula de su fundación. Esa distinción crítica muestra el papel que juega la ficción literaria en los proyectos políticos instituyentes de las naciones latino-americanas ( y del imaginario asociado) pero también de su potencia subversiva (en cuanto mecanismo de desincorporación).

Lo cierto es que, del romanticismo al modernismo, y del modernismo hasta nuestros días, un verdadero (devenir-menor) impregna a la literatura latino-americana, que en la exigencia de constituirse como una conciencia reflexiva del nuevo mundo se vio obligada a una serie de dislocaciones estratégicas que la llevarían más allá de los horizontes mayoritarios de la expresión estética.Vicisitudes de una literatura que, en un territorio sin lugares comunes, asumió la tarea de producir la memoria de una experiencia compartida.

(Des) orientados por las obras de Ricardo Piglia, Juan José Saer, Antonio di Benedetto, Augusto Roa Bastos, Alejo Carpentier, Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa (exploradores versados en las veredas del nuevo continente), intentaremos delinear ese singular territorio expresivo, donde el arte reconoce su naturaleza inmediatamente política, que constituye una de las dimensiones más interesantes y más ricas de América Latina.