Curatorial, Devir Menor

INÊS MOREIRA

Devir Menor expande-se da intuição de um conceito crítico – o menor – para mapear  instanciações de práticas menores na produção de espaços num território vasto que experimentamos como Ibero-américa. Despoletado como uma inquietação sobre a ideia de autoria e de menoridade na literatura de Kafka, tal como enunciado por Gilles Deleuze e Felix Guatarri, e a par do conceito de práticas alteradas enunciado por Doina Petrescu a propósito do potencial transformador de Arquitecturas não dominantes, Devir Menor tenta diálogos a sul, mapeando e articulando entradas de diversas disciplinas – arquitectura, sociologia, filosofia, geografia. O projecto explora modalidades de conhecimento situado e segue uma base metodológica aberta que se surpreende a si mesma através da rede de colaborações que estabeleceu: editores, arquitectos, teóricos, artistas, designers, associações culturais, foram contribuindo para definições do conceito do projecto e para o seu mapeamento em ambos lados do atlântico.

Acreditando que um projecto é uma conjunção de ideias, intuições, métodos e de encontros situados, abre-se espaço, e um lugar, para o pensamento adisciplinado. Em Devir Menor exploram-se ideias materiais presentes na construção em geografias do sul para superação da escassez de meios, como o improviso, o desenrasque, a manualidade, modos de evolutividade e crescimento de espaços – as cabanas, as barracas, os avançados -, a par da reflexão crítica enunciada por práticas espaciais e arquitectónicas colaborativas e participativas, designadas na literatura anglo-saxónica como “critical spatial practices”. Estas “arquitecturas e práticas espaciais críticas” são empírica e teoricamente tecidas como um “desfazer” da centralidade autoral, do desenho, ou da “arquitectura” dominante. Os autores e colectivos envolvidos enunciam questões económicas, corporativas e políticas da arquitectura e expõe vontades de constituição de projecto colectivo.

Este texto sistematiza a experiência do projecto e abre questões ao próprio processo de investigação: como transcrever práticas espaciais, performativas e materiais em formatos curatoriais? como incorporar encontros de um processo de trabalho, aquilo que nos afecta e, simultâneamente, delinear e prosseguir com um plano de investigação e de produção?